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05/08/2010

Altshülerbrief 114 – Março de 2010

10/03/2010

“Artigo a ser publicado na íntegra no AB115”

Sobre Ludwig Wilhelm Theodor Seyer, Professor nascido em 24 de novembro de 1914 e falecido em 1° de agosto de 2009. *

Quem teve o privilégio de tê-lo como professor jamais o esquecerá pela insistente confiança que repassava ao identificar talentos e apresentar encantadas possibilidades de brilhantes cenários futuros. Em sua opinião, cada jovem era depositário de promessas ainda não cumpridas pela humanidade e só à espera da recordação, incentivada por prática educacional adequada. A ocorrência do desenvolvimento de cada um seria normal, natural e legítima descoberta de talentos encobertos, esquecidos, ou sem ainda a oportunidade de sair debaixo da coberta de inverno da vida culturalmente congelada para florescer na primavera da criatividade. Tratar-se-ia de descobrir e assumir a parte da vida adormecida, a qual a outra parte da vida rotineira e preguiçosamente sistêmica fazia questão de cobrir por múltiplas funções recorrentes de interesses às vezes já doutrinariamente sedimentados.

A sua tarefa de professor? Ora, coisa muito simples: tornar a vida mais rica professando a tarefa de professar precisamente em prática insistente. Isto é, o Professor professava a necessidade de assumir a profissão fundamental de descobrir e descobrir-se. Não havia apenas um conteúdo a ser transmitido como se fosse algum objeto a ser repassado, mas a ativação para o reconhecimento de uma rica herança coletiva, acobertada por preguiça mental ou servidão aos apelos de afazeres quase sempre mesquinhos. Não é pouca coisa, pois tal atitude exige que o profissional se identifique com o que pensa, diz e faz num constante processo criativo, colocando-se em jogo, assim como também qualquer um que com ele se entusiasme na construção coletiva. A grande maioria dos mestres, pelo contrário, tem um conteúdo predeterminado a transmitir, do qual julga que seja específico, objetivo, independente da sua subjetividade particular, pois pretende um simples repasse como se fosse ferramenta ou patrimônio de algum saber em forma de mercadoria.

À diferença disso, a concepção do Professor primava pela sua aguda percepção da beleza no cultivo da tradição viva presente no semelhante, apenas amortecida pela prática do acanhado igual, mesmo que metamorfoseado por modismos oportunistas. Tal percepção não se resume apenas à cantilena de fazer com que talentos desabrochem, mas, ao contrário, ela se ativa no processo de resgatar a chama dos desejos de felicidade e beleza dos já adormecidos de todos os tempos e da sua possível realização na juventude presente. Reconhecer e revivificar tais desejos no talento latente em corpo e espírito do jovem era a meta que se lhe impunha. Ah, sim, a juventude! Esta ele simplesmente identificava como a dádiva de manter o processo perceptivo que possibilita a constante e assumida descoberta instantânea da novidade de si.

É claro que tal junção identificadora de vida, obra e percepção do instante propício da descoberta por vezes parecia ingenuidade inconveniente a alguns, franqueza fora de hora ou insânia atenuada a outros. Por seu jeito impossibilitado de aceitar a ostentação da hipocrisia culturalmente sedimentada, todos eram avisados da direção desde sempre imprimida, em cujo caminho na sua companhia o descompasso distraído, o desacerto e o erro eventuais até eram generosa e pacientemente permitidos em larga escala, mas não a ignorância orgulhosamente alardeada, a platitude medíocre em exibição.

Os resultados práticos dessa sua concepção por vezes eram assustadores, por vezes jocosos, pois mesmo que levasse em conta a efetiva respeitabilidade da tradição, era-lhe essencial valorizar a sensibilidade, o pensamento e a atuação presente de cada um. Episódios típicos às vezes esclarecem muito, outras vezes não. Arrisco a esperança de que duas das muitas recordações queridas possam servir de ilustração pelos parcos recursos da linguagem sempre à cata da imediação da vida, mas permanecendo somente nas suas cercanias.

Em meio a um ensaio de um quarteto dificílimo de Brahms, de repente ele parou de tocar, colocou a viola no colo, e suspirou sentenciando: “Estou apaixonado!” O Ingo Schreiner, violoncelista, gargalhou na hora. O médico pianista Ari Wolfenbüttel, ainda com os dedos cheios de notas, reclamou carinhosamente: “De novo? Essa, não!” Convencido a tocar em seu violoncelo a parte do contrabaixo da Forelle de Schubert e sentado ao lado, na espera do ensaio posterior do quinteto, o Prof. Hinrichs repetia: “Ná, ná, ná, ná, so was! Was ist denn das jezt!”, ou seja, “Ora, ora, ora, ora, o que vem a ser AGORA isso aí?” Não tinha jeito, pois estávamos todos fadados a relaxar e escutar por alguns minutos profundas reflexões instantaneamente intuídas sobre as relações possíveis de nós homens com a alma feminina em geral.

Outra vez, num ensaio de um quarteto de Mozart, interrompeu o som de todos pedindo para repetir determinada passagem umas cinco a seis vezes. Enquanto todos nós achávamos que alguém estaria atravessando o compasso ou desafinando, saiu-se com essa: “Sicherlich war er besoffen gewesen”!, isto é, “Certamente estava bêbado”. E ria. “Bêbado, quem? O Mozart?” perguntamos horrorizados. “É claro, pois essa passagem é inesperada e atípica nessa obra; eu, de acordo com a proposta inicial da frase musical teria feito diferente, assim e assim…”, e nos ensinava raciocinando criticamente como se fosse ele o compositor diante da sua obra.

Não estávamos acostumados com isso, pois todos nós ainda éramos vítimas da síndrome provinciana de que qualquer desvio de uma contemplação incondicional da sagrada genialidade dos grandes compositores representaria uma reação completamente iconoclasta e uma grande traição à nobre tradição humanista e à cultura dos séculos. Nós nos sentíamos ninguém frente ao grande gênio de qualquer obra. O Professor, porém, parecia querer contrabalançar esse clima de pasmaceira, passando a idéia de que precisamente nós éramos os únicos com quem o gênio e suas obras podiam contar naquele momento e naquele lugar. Além de, é claro, chamar a nossa atenção para as torções bruscas e inusitadas na seqüência da harmonia de uma composição, o que, na sua teoria, geralmente apontava para um desenvolvimento posterior da obra do próprio compositor.

De modo geral, todos cooperavam alegremente cúmplices, gentil e solicitamente nos concertos e nas audições que ele organizava nas instituições educacionais da região, como o Colégio Sinodal, a Escola Normal Evangélica, a Faculdade de Teologia e o Instituto Pré-Teológico: os professores Naumann, Hinrichs, Krehl, Kopittke, o comerciante violinista Dauber, o médico pianista Ari Wolfenbüttel, a flautista Frank, outros músicos agregados da OSPA, e grande número de alunos, em suma, aqueles que pelo seu talento estavam implicados com o aspecto musical. Todos no fundo intuíam que com ele éramos levados a não nos sentir como meros consumidores praticantes da música dos gênios como se fosse cultura objetiva absoluta, mas, junto com a sensibilidade concernente a cada um de nós, instigados a pensar o próprio desenvolvimento da música ocidental através dos séculos pela representação qualificada dos compositores. Para nunca mais esquecer, uma das suas lições fundamentais era a de que, no que concerne a totalidade da tradição em qualquer área, o centro da questão éramos nós, de que o intérprete é sempre a própria possibilidade da continuação da obra do gênio, de que a obra estava em nossas mãos e éramos nós os responsáveis pela sua continuidade, não como mera repetição contemplativamente mecânica, mas como nova criação. Ele procurava fazer valer essa concepção sobre a arte musical para todas as áreas do saber de uma instituição educacional. Não consigo decidir se pela distância do tempo objetivo, ou, ao contrário, se pela proximidade da recordação, sou levado a expressar e pedir:

REQUIEM  AETERNAM

Senhor, liberta da escuridão

Da fixidez de um coração vazio

Perpassa a mente em revelação

Do recado em vida de quem partiu

Flor sonora e morte em explosão

De vida em luz no infinito espaço

E em tempo tendo como direção

Deixar o rastro de um passado traço

Que a leitura desse chão sagrado

À luz do que do eterno alumia

Evocando as sombras do passado

Que qual futuro sempre principia

Dê a consciência da recordação

Em atenção silente e do ouvir

Pedaços de nós mas sem choro vão

Familiar escuta e estranho devir

Qual a distância de ontem a hoje

Qual o perfil do dia de amanhã

Qual é a dúvida que não enoje

Até qualquer simples alma pagã

Não encontrar no instante agora

Os rastros da infinita aurora

Da terra no perene amanhecer

Da paz com a morte em viver e ser

Consciência limpa sem dentro e fora

Vontade em música rente agora

Divino dom no tempo se expressa

Arte ensina e coração confessa

Que a vida a eternidade namora

E seguindo o amor professa

Que não tem mais jeito flor sonora

Pois a saudade do jeito aflora

* Autor: Paulo Rudi Schneider 1956-61. Parte do texto do artigo “Universidade Comunitária”. In: 2010: o ano da saúde do professor. Revista Informação – Sinpro Noroeste, Nº 106, Jan/Fev 2010, p. 6-8.

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Excerto e considerações adicionais:

_Variação sobre tema L. W. T. SEYER.

Tanto Kirst [no AB n. 114], como Schneider (este a partir do teor no blog do IPT) descreveram a figura multifacetada do nosso saudoso Ludwig Seyer.

Este que “se emplumava” tal um ‘pavo’, quando se o equiparava a seu notório xará, tocaio, Ludwig van Beethoven.

Ah, como essa comparação adredemente feita por nós estudantes – há muitos anos atrás – lhe massageava  o  ego!

E o Paulinho em seu brilhante e filosófico texto; ah, aliás, uma peça ímpar, ou seja, ele escreveu para deleite de nós outros: uma verdadeira ode ao inolvidável maestro Seyer, e fê-lo numa redação primorosa, em uma verdadeira prosa poética!

E não era de causar m’or espanto o fato de ele (Seyer) – surpreendentemente – exclamar, justo no meio de uma execução musical, e assim a interrompendo:

“Estou apaixonado!”

O mestre Ludwig vivia da paixão = passio= Leidenschaft pela música, preponderantemente!

Mas ele denotava, não raro, declinar seu percebível estro em direção às moças, suas alunas de música; e era bem fácil notar isso, apesar de sermos todos ainda tão jovens, na época do PRO!

O maestro Seyer foi, em realidade, um eterno romântico, todavia do tipo longevo, pois ele logrou viver quase um século.

O episódio de ele questionar Mozart, isso é revelador de que também era gênio; e – muitas vezes – também genioso, tal qual seu homônimo Ludwig [van Beethoven].

Mozart foi criticado por ele; e por que não?

Bem, é que Mozart podia até estar embriagado, quando escrevera certa passagem ou denotar isso em determinado movimento numa de suas tantas composições, ou seja, como a criticada por nosso festejado músico.

Seyer, e à despeito dos outros executantes, só ele

percebera essa dita eiva musical; e a partir disso pode-se

bem depreender  que ele – realmente – era alguém dotado

de excelente esto musical…

Mesmo a ser eu um simples melômano, muitas e muitas vezes, ao escutar e deliciar-me com alguns dos renomados concertos para piano de Mozart, ainda consigo acrescentar notas, tons e melodias complementares à radiante música de Amadeus!

P o r   q u e  então a pasmaceira em relação ao saudoso mestre Grilo [sic], ou seja, a de ele tachar Mozart, numa dada passagem musical oferecida, d’ele estar a compor num como que estado de ebriedade?

E daí?…

Porém, o essencial dele ficou, do maestro Seyer, o Paulo Schneider*, com a sensibilidade e a que lhe é sempre peculiar, ao lascar:

Inolvidavelmente, … “*uma de suas lições fundamentais era a de que, no concernente à totalidade da tradição em qualquer área, o centro da questão, éramos nós {os músicos executantes}, de que o intérprete é sempre a própria possibilidade da continuação da obra do gênio, de que a obra estava em nossas mãos e éramos nós os responsáveis pela sua continuidade, não como mera repetição contemplativamente mecânica, mas como nova criação [o grifo é meu].

Alfredo Foerster 1958-62

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